Volto a publicar a entrevista feita ao Jorge Palma em 1979, por altura da edição do álbum "Qualquer Coisa Pá Música"
Perg. - Quem é o Jorge Palma?
Resp. – Quem sou eu? Bela pergunta com milhões de respostas e mais interpretações ainda. Sinceramente, não estou certo de conhecer a resposta verdadeira e como tal respondo que sou alguém que como toda a gente tem direito a ser livre e estou disposto a lutar por isso, enquanto tiver força. Alegremente.
Perg. – Há três anos editaste um disco, “Té Já”, mas esse “Té Já” durou este tempo todo. O que fizeste durante estes três anos?
Resp. – Quando acabei de gravar o disco tive uma hepatite e depois tive um mês no hospital. Em seguida fui para Espanha, tendo sido a primeira vez que fui só com a guitarra, tocar na rua. Estive lá três meses e depois voltei a Portugal e o disco ainda estava por editar. Foi editado enquanto eu cá estava. Depois fui para França, onde estive dois anos e durante esse tempo andei por Paris, fui até Inglaterra e Alemanha. Andei por aí, pelo mundo fora, até Agosto de 1979, altura em que regressei a Portugal. Durante esse tempo todo, fiz músicas, cantei no metro, festas, bares e conheci o Blue Grass, um tipo de música de que gostei muito e porque sou bastante influenciado.
Perg. – O que sentes quando tocas no Metro e te dão esmolas, e logo a seguir vais para a TV?
Resp. – Quando estou a tocar no metro, sinto-me bem, mais livre, mais à vontade, mais despreocupado. No metro toco o que me apetece e as pessoas dão o que querem e o que lhes apetece. Na TV, uma pessoa sente-se mais responsabilizada, não se pode ser extra reaccionário, nem radical. Na TV é mais difícil.
Resp. – Quando estou a tocar no metro, sinto-me bem, mais livre, mais à vontade, mais despreocupado. No metro toco o que me apetece e as pessoas dão o que querem e o que lhes apetece. Na TV, uma pessoa sente-se mais responsabilizada, não se pode ser extra reaccionário, nem radical. Na TV é mais difícil.
Perg. – Recentemente numa entrevista na televisão, fizeram-te uma pergunta sobre os comprimidos que tomavas, se ainda os continuavas a tomar. Lembro-me que respondeste espontaneamente à questão e com bastante à vontade. Porquê essa descontracção na resposta?
Resp. – É tipo impulso, estou a ser arrastado pelo pensamento de que há uma câmara e que de vez em quando corta. Estando à vontade, ninguém me pode incomodar.
Resp. – É tipo impulso, estou a ser arrastado pelo pensamento de que há uma câmara e que de vez em quando corta. Estando à vontade, ninguém me pode incomodar.
Perg. – Quais as influências que tens do Sérgio Godinho?
Resp. – Pessoais, são porreiras. Espirituais, são ainda mais porreiras. A primeira vez que o encontrei, foi em Paris. Foi num dia em que fui comprar tabaco a um café onde não era costume ir, e quando ia a sair do café deparei-me com ele e falamos. No dia seguinte estava a tocar no metro numa carruagem e o Sérgio entrou e a partir dessa altura ficámos grandes amigos. Quanto ao ponto de vista musical, acho que ele tem bastante talento, que é um valor muito válido para a música Portuguesa e como tal, tenho algumas influências dele. Na minha opinião, dentro da música Portuguesa ele é um deus
Perg. – Tu condicionas-te somente a um estilo musical?
Resp. - Não, o tipo de música que se toca depende do estado de espírito de uma pessoa. O Blue Grass é um estilo musical que fala de desastres, dramas, e que tem ritmo e por isso torna-se um bocado alegre. Por sua vez o Jazz e o Blues são do género mais triste. Como disse, acho que a música depende do estado de espírito.
Perg. – Qual o principal estilo de música que mais te influencia?
Resp. – Não há um estilo que se possa dizer principal. Já tive momentos em que era mais influenciado pelo Jazz, outras pelo Country e actualmente estou mais influenciado pelo chamado folclore. É por isso que agora penso fazer uma volta por Portugal, terra a terra. Em França convivi com todo o tipo de camadas sociais, o que não acontece cá em Portugal, talvez por as camadas estarem mais fechadas, entre barreiras, do que lá.
Perg. – Não há nada que te impeça de ir pelo país, por exemplo ao Norte, tradicionalmente mais fechado?
Resp. – No norte nunca experimentei, mas em Faro e Setúbal tive grande aceitação, o que já não aconteceu em Vila Real de S. António, pois os senhores de mais idade olhavam para mim com uma cara, como se estivessem com medo.
Perg. – Quando estás a compor, em que pensas?
Resp. – Quando estou a compor? Já passei por uma fase em que me preocupava com o que ia dizer, agora já não.
Perg. – Porquê?
Resp. – A malta é comodista, pois todos querem ter tratamento de rei, e por isso não quero criar compromissos de ficar em dúvida. A partir de certa altura da vida, quando se tem família, já não podemos dizer que fizemos alguma coisa mal, pois já está tudo organizado.
Perg. – Ao analisar as letras deste teu mais recente trabalho “Qualquer Coisa Pá Música”, verifica-se que a maioria delas falam do dia-a-dia das pessoas, principalmente da cidade. Porquê?
Resp. – Porque a maior parte do tempo que tenho é passado na cidade. Uma pessoa tem de ter o sentimento que o determina. Quando vivemos numa cidade, fazemos parte dela e como tal é uma influência natural. As músicas que fiz, ou que vier a fazer no campo, serão músicas mais leves, vão falar de pássaros e flores, enquanto que as da cidade são sempre mais pesadas, mais esquizofrénicas.
Perg. – Há pouco falaste que gostavas de fazer coisas para crianças. Já alguma vez fizeste um programa destinado a esse tipo de público?
Resp. – Já. O Júlio Isidoro convidou-me para fazer uma música sobre castanhas, para o programa “Arte & Manhas”, mas o programa foi adiado e nunca chegou a ser gravado. Recentemente foi gravado um disco com as músicas dessa série e eu canto essa música.
Perg. - O que sentes ao gravar para crianças?
Resp. – Sinto-me diferente.
Perg. – Achas que em Portugal é possível viver, somente, à custa da música?
Resp. – Eu já cá estou há nove meses e vou sobrevivendo. Não é nada fácil apesar de eu ter um bom acesso à televisão.
Perg. – Sentes-te influenciado por alguém em especial?
Resp. - Em especial, não. Sinto-me mais influenciado por aqueles que têm mais força, pelos que morrem sem ter atingido os seus objectivos, pelos que morrem no auge da sua força. Perg. – Como por eemplo Woodie Ghthrie? Resp. – Sim. São pessoas que toda a energia que fizeram na vida, depois de morrerem, multiplicou-se. Gosto muto do John Lennon, como compositor, como poeta.
Perg. – Quando actuas, o teu cachet é elevado?
Resp. – Depende. Há casos em que cobro cachet, outros casos não, pois se a pessoas que contrata puder pagar, é lógico que cobro; no entanto, se não puder pagar, eu não cobro esse cachet e actuo de borla, mas as entradas também têm de ser de borla.
Nota final - Jorge Palma partiu, mas deixou-nos uma obra soberba e intemporal.
O homem que sonhou com uma terra onde podíamos ser quem quiséssemos que ninguém ia levar a mal e em que toda a gente tratava toda a gente por igual.
Um sonho que nunca se concretizou, e que dificilmente se concretizará, num mundo cada vez pior, repleto de ganâncias e egoísmos que não auguram nada de bom.
No entanto, como Jorge Palma dizia, enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar, e a sua música vai continuar a fazer parte da banda-sonora das nossas vidas.